Hipotireoidismo - O que é e como tratar?

Com formato de borboleta e pesando cerca de 20 gramas, a tireóide é uma das nossas principais glândulas.

Ela fabrica os poderosos hormônios tireoidianos — substâncias que, via sangue, agem no corpo inteiro, no desenvolvimento e manutenção de todos os órgãos e funções.

Ajudam o corpo a usar energia e reter calor; fazem cérebro, coração, músculos e outros órgãos trabalhar devidamente.

“A tireóide trabalha em conjunto com a hipófise (glândula situada no cérebro), num processo de feedback”.

 

Funciona do seguinte modo:

A hipófise fabrica o hormônio TSH (hormônio estimulante da tireóide), que é lançado na corrente sanguínea, de onde vai diretamente para a tireóide, levando-a a produzir hormônios tireoidianos; esses, por sua vez, agem em seguida na hipófise, controlando a quantidade de secreção de TSH, que, de novo, estimula a tireóide a fabricar seus hormônios. E, assim, continuadamente.

Se, por qualquer razão, os hormônios tireoidianos caem ou sobem um pouquinho na circulação, o organismo se defende. No ato, a hipófise aumenta ou diminui a produção de TSH. Por isso, sempre que se quer saber como está funcionando a tireóide, tem que se “consultar” primeiro a hipófise, local mais sensível à ação dos hormônios tireoidianos. A dosagem do TSH no sangue fornece a informação.

 

No hipotireoidismo, o TSH sobe, a tireóide mantém a produção praticamente normal e a pessoa não sente nada. Mas, com a evolução da doença, a atividade da tireóide cai, o nível dos hormônios tiroidianos baixa muito no sangue e o metabolismo do organismo todo diminui.

 

Tudo em Marcha Lenta

Independentemente da causa, a redução dos hormônios tireoidianos no sangue leva aos poucos o organismo inteiro a “andar” em marcha lenta.

Eis o que pode provocar na pessoa afetada:

* Cansaço, desânimo, com fraqueza. / * Lerdeza para reagir às situações do cotidiano.

* Raciocínio moroso, concentração difícil e memória ruim. / * Sonolência durante o dia. / * Dores nas juntas.

* Sensação de frio quando as outras pessoas sentem calor. / * Pálpebras e rosto inchados ao amanhecer.

* Cabelos ressecados, quebradiços, que caem mais do que o habitual. / * Unhas quebradiças. / * Pele muito ressecada e grossa.

* Prisão de ventre. / * Irritação. / * Pele amarelada ou alaranjada.

* Alteração na menstruação, principalmente com aumento do sangramento. / * Surgimento ou agravamento da depressão.

* Aumento da taxa de colesterol. / * Diminuição do apetite. / * Voz rouca. / * Aumento do tamanho da língua.

* Ganho de peso (por retenção hídrica e não por aumento de gordura) ou dificuldade de perdê-lo.

"Os hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina) são essenciais para o desenvolvimento e a manutenção do sistema nervoso central. Também potencializam a ação das catecolaminas (substancias produzidas pelas adrenais, que podem agir como neurotransmissores, os quais são substâncias químicas liberadas pelos neurônios e utilizadas para transferência de informação entre eles). A diminuição dessas substâncias pode provocar alteração no sistema nervoso central, causando enxaqueca, depressão, ansiedade, etc

 

Clássico ou Subclínico?

“Hoje, raramente atendemos hipotireóideo com tudo isso junto”, salienta Romaldini. É o hipotiroidismo clássico, ou manifesto.

Usualmente, o diagnóstico é feito numa fase mais precoce, e o paciente apresenta apenas alguns dos sintomas acima, que, aliás, são comuns a diversas condições, como anemia, depressão, stress e menopausa.

Já o hipotireoidismo subclínico é, em geral, um achado laboratorial. As sociedades de ginecologia e endocrinologia preconizam o TSH para mulheres após os 40 anos, os médicos solicitam-no e o resultado dá entre 4,5 a 10 miliunidades/litro. Ou a pessoa refere cansaço que não consegue explicar direito, o médico pede o teste e o resultado vem também nesse intervalo.

O TSH, vale relembrar, é o exame para saber como a tireóide está funcionando. O normal é ter de 0,3 a 4,5 miliunidades de TSH por litro de sangue. Acima de 10, considera-se hipotiroidismo. De 4,5 a 10 miliunidades é a faixa do hipotireoidismo subclínico.

Justamente a que, neste momento, intriga médicos aqui e no exterior, que se perguntam: será essa ligeira elevação já a doença?

Será que ela piora a qualidade de vida? Será que esse cansaço vago decorre de stress ou já é um sintoma da disfunção mínima da tireóide?

Pesquisas em andamento vão dar resposta a essas questões nos próximos anos.

 

TSH, Exame-chave

O diagnóstico de hipotireoidismo é feito através de dosagens hormonais. Na maioria das vezes basta o TSH.

Para facilitar a vida, pode-se dosar no mesmo dia o T4 livre.

Mas o TSH é o exame-chave. Seu nível aumenta ou diminui 100 vezes a cada mínima mudança do hormônio T4, portanto é o primeiro a detectar qualquer alteração de função da tireóide.

“Nos resultados normais, pode-se parar por aí”. Nos alterados, devem ser feitos mais dois testes:

1) T4 livre, particularmente útil no diagnóstico do hipotireoidismo subclínico. O T4 livre normal combinado a TSH pouco elevado indica disfunção mínima da tireóide.

2) Anticorpos antitireóide, para identificar a causa.

Resultado positivo é forte indício de tiroidite de Hashimoto, o que significa sete vezes mais risco de o hipotireoidismo progredir.

Logo, esse exame pesa bastante na decisão de tratar.

 

Acima de 10, medicar

É consenso entre os especialistas: pessoas com TSH acima de 10 devem ser tratadas.

Objetivo: aliviar e/ou evitar sintomas do hipotireoidismo, e principalmente prevenir suas consequências cardiovasculares e psiquiátricas.

“O hipotireoidismo está associado a aumento de colesterol, favorecendo aterosclerose e infarto do miocárdio”.

“Também pode alterar o humor, contribuindo para a depressão.”

A terapia consiste em tomar diariamente, e para o restante da vida, comprimidos de levotiroxina (há várias marcas comercializadas no Brasil). É hormônio T4 sintético. Não cura o hipotireoidismo, apenas substitui o que a tireóide doente não está produzindo em quantidade suficiente. A melhora dos sintomas é lenta, podendo levar meses se eles forem intensos.

 

 

Importante

 

O tratamento do hipotireoidismo subclínico é controverso. Alguns médicos tratam toda pessoa com 4,5 de TSH.

Já a conduta do Ambulatório de Tireóide da Unifesp é não tratar paciente com TSH entre 4,5 e 10, salvo se tiver queixa importante ou fator de risco associado.

E, a cada seis meses, o paciente passa por nova avaliação. Se alterar o TSH ou o quadro clínico, inicia-se o tratamento.

Ou seja, deve-se acompanhar e agir na hora certa em cada caso. “O motivo não é econômico”, frisa Gilberto Vieira. “É para evitar a medicalização desnecessária.”

 

Na verdade, são várias as razões contra o tratamento indiscriminado de pessoas com TSH pouco elevado:

 

1) O tratamento precoce não previne a destruição da tireóide, pois não age na causa.

A doença propriamente dita continua evoluindo. É uma terapia substitutiva, tal como a insulina para diabéticos.

2) Parte dos pacientes tem elevação circunstancial do nível de TSH, normalizando naturalmente depois.

3) A doença tem evolução lenta. Dos pacientes com hipotireoidismo subclínico, 2% a 5% por ano progredirão para o hipotireoidismo manifesto.

A alguns isso acontecerá no ano seguinte. A outros, 10, 15 ou 20 anos depois. Logo, tem gente que tomará remédio por tempo prolongado sem precisar.

4) Avaliação das principais pesquisas feitas no mundo sobre hipotireoidismo subclínico concluiu recentemente que não há evidências científicas suficientes para recomendar o seu tratamento de rotina.

5) O tratamento pode causar hipertireoidismo. E hipertireoidismo provoca fibrilação atrial (batimentos anormais do ritmo cardíaco), o que ocasiona infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, além de levar à osteoporose.

“É quase impossível manter os hormônios tireoidianos em níveis adequados no sangue quando o TSH está em 4, 5 ou 6”, alerta Romaldini. “Por isso, em pacientes com 4 a 8 de TSH, é preferível acompanhar em vez de tratar, a menos que ele tenha fator de risco associado, como aumento do colesterol total e da fração LDL (o ‘mau’ colesterol), angina, doença do pânico ou depressão que não melhora com antidepressivos, diminuição de memória e de concentração.”

 

A propósito, muitíssima atenção:

“A grávida hipotireóidea, mesmo subclínica, precisa ser sempre tratada”, avisa Vieira. A tireóide do feto só começa a funcionar entre a 12ª a 15ª semana de gestação, fase em que depende exclusivamente dos hormônios tireoidianos passados pela mãe. Aí, o hipotireoidismo materno pode afetar o cérebro do bebê, comprometendo o seu desenvolvimento neuropsicomotor.

 

  Atenção  

Se sentir cansaço, desânimo ou depressão que não consegue explicar direito, consulte o seu médico. Pode ser que não seja stress ou excesso de trabalho, mas hipotireoidismo.

Se porventura o TSH der pouco alterado, lembre-se de que cada caso é rigorosamente um caso.

Participe da decisão de iniciar ou não a medicação de imediato. O tratamento é para a vida toda.

“Tem muita gente sendo rotulada de hipotireóidea desnecessária e equivocadamente”, adverte Vieira. “Está havendo excesso de diagnóstico e de tratamento. Por trás, está a pressão dos laboratórios farmacêuticos para vender mais hormônio tiroidiano sintético.”

 

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